31/10/2012

Destralhar o telemóvel

O meu telemóvel é daqueles super básicos, que faz e recebe chamadas e SMSs e pouco mais. Não tira fotos, não tem internet, nem nenhuma dessas tecnologias... Aqui há uns tempos deram um telemóvel à minha mãe na Vodafone (ela foi lá refilar por causa da internet, saiu de lá com um telemóvel!) e ela deu-mo. É branquinho, bonito, igualmente básico como o outro, com a diferença que tira umas fotos desfocadas... Pus o meu cartão no novo telemóvel e apercebi-me que fiquei sem muitos números que estavam na memória do outro telefone. Pensei logo que isto era uma oportunidade fantástica para destralhar os números de telefone e ficar apenas com aqueles que são realmente importantes. 

E foi o que fiz. Primeiro, passei todos os números do cartão e da memória do telemóvel antigo para um papel; alguns nem passei, pois já nem sei quem eram as pessoas... (sim, eu sei que pode-se ir à loja fazer isto, mas não era esse o objectivo) Depois, gravei novamente os números que de facto me interessam. Família, amigos e colegas mais próximos, médicos, escola. Nos últimos anos tenho comunicado com o resto das pessoas sobretudo através do facebook ou por email, por isso não vejo necessidade de manter números que não são usados. Se for mesmo preciso algum desses números, estão no papel (que vais ser digitalizado e jogado fora, claro).

E assim o meu telemóvel ficou muito mais leve!

Entretanto, mudei para o telemóvel antigo, pois o novo não tinha uma coisa que eu uso imenso: temporizador. Uso no laboratório quando tenho que esperar por alguma coisa, uso para contar Pomodoros, uso quando vou correr (sim, voltei a fazer desporto quase 4 meses depois de ter partido o pé) para alternar entre corrida e marcha, etc... Mas o cartão mantém-se livre de tralha - mesmo assim, muitos dos números que tenho são para emergências, e não números que uso regularmente...

E vocês, contactam com todas as pessoas que têm no telemóvel?

29/10/2012

Novembro é o mês da escrita


No Twitter há uma comunidade incrível de académicos (doutorandos, posdocs, professores) que se apoia e partilha os seus problemas, desafios, alegrias e dicas para manter a sanidade. Gosto sobretudo das hashtags #ECRchat (early career researcher chat), #PhDchat e #AcWri (academic writing).

Novembro é o mês da escrita académica (#AcWriMo), uma iniciativa do site PhD2Published, onde cada participante estabelece objectivos de escrita e compromete-se a atingi-los ao longo do mês (por exemplo, escrever 10 mil palavras, acabar 2 capítulos da tese, escrever 2 artigos, etc.). O motivo de ser deste desafio (e outros do estilo) é simples: publicar resultados é o objectivo final de qualquer académico (publish or perish), mas escrever é uma tarefa que invariavelmente fica esquecida porque há sempre coisas mais urgentes para fazer. Os melhores escritores são aqueles que escrevem de forma consistente, um pouco todos os dias. E é isso que este desafio pretende - apoiar, dar força e motivação a quem todos os dias é confrontado com impedimentos e distracções que nos afastam do teclado do computador (ou do ficheiro do Word onde brotam as nossas ideias)...

As regras do #AcWriMo são simples:

1. Estabelecer objectivos de escrita (realistas) para o mês de Novembro

Os meus objectivos para o desafio: escrever dois artigos científicos (nunca escrevi 2 artigos num mês; o meu recorde é 1 artigo num mês, mas fazendo outras coisas ao mesmo tempo).

2. Declarar publicamente a participação no desafio e publicitar os objectivos

Estou a fazê-lo aqui e vou fazer no Twitter.

3. Definir uma estratégia

Não é só decidir que vou escrever 2 artigos. Tenho que definir como e quando é que vou fazê-lo, quantas horas por dia vou dedicar à escrita, quantos dias da semana, e como é que vou evitar distracções. Decidi que vou ficar a trabalhar em casa, pois bate o Sol no escritório o dia quase todo e no gabinete na univ não bate tanto (e o Sol dá-me energia). Em casa o telefone não toca tanto nem me batem à porta com dúvidas ou problemas. Se não quero ser incomodada, tenho que ficar em casa (e usar as minhas estratégias para conseguir trabalhar bem em casa). Para ficar em casa o mês inteiro (ou quase), tenho que despachar uma série de coisas no laboratório durante esta semana. Depois, são 4 semanas seguidas de máxima concentração! A ideia é continuar a usar a técnica Pomodoro (25 minutos de trabalho seguidos de 5 minutos de descanso), que tem dado bons resultados. Quero trabalhar 8 horas por dia, mas não são 8 horas a escrever! Tenho dados para analisar, estatística para fazer, artigos para ler, e muito em que pensar. 4 semanas para 2 artigos dá 2 semanas para cada artigo. O plano é escrever a Introdução, Métodos e Resultados numa semana e a Discussão na outra semana.

4. Discutir o progresso

Não é para passar o dia inteiro no Twitter ou no Facebook, mas é importante ligar-me de vez em quando para partilhar o meu progresso e ver como andam as coisas com os outros participantes - é extremamente motivador ver que há pessoas que conseguem escrever 2 mil ou 3 mil palavras por dia!

5. Não perder a motivação

Vai ser um mês difícil, claro que vai. Mas devo pensar na meta que me propus atingir e tê-la sempre em vista - escrever 2 artigos num mês! E se isto correr bem, já sei que posso voltar a fazer um desafio destes e aumentar a minha produtividade de uma forma incrível!

6. Mostrar os resultados 

No fim do mês, é altura de fazer contas. O que é que podia ter sido feito de forma diferente? Consegui focar-me com facilidade ou procrastinei em demasia? Mas, o que mais interessa, os objectivos estabelecidos foram alcançados? No fim do mês publicarei aqui e no Twitter os resultados. Se escrevi os dois artigos, quanto é que escrevi, se superei ou fiquem aquém das minhas expectativas... (claro que estou à espera de atingir os meus objectivos, senão, what's the point?)

26/10/2012

Como arranjar mais tempo

Eu adoro esta temática da gestão do tempo. Gosto de ler blogs e livros sobre o assunto, e um dos meus livros preferidos é o 168 hours, da Laura Vanderkam, sobre o qual já falei aqui. A Laura também tem um blog e, como jornalista freelancer, escreve muitos artigos sobre este tema para diversas publicações online - e eu devoro-os todos. Um tema recorrente da sua escrita é como aproveitar bem o tempo que temos - afinal, todos dispomos das mesmas 168 horas semanais. Se umas pessoas conseguem fazer imenso nesse período, porque é que outras estão constantemente a queixar-se que não têm tempo para nada? Uma forma de aproveitar melhor o tempo é olhar bem para blocos de tempo ao longo do dia que são subaproveitados, e organizar as coisas de forma a aproveitar melhor esses períodos.

Para começar, o período da manhã é o preferido da maioria das pessoas de sucesso. Enquanto as outras pessoas dormem, as pessoas mais produtivas levantam-se mais cedo para aproveitar essas horas calmas, quando ainda não surgiram problemas, emergências ou outras solicitações. Estas pessoas aproveitam as manhãs para trabalhar, para fazer desporto, para cuidarem de si. E acordar cedo não é assim tão difícil como parece! Se queres começar a acordar mais cedo, aproveita agora que a hora vai atrasar! Se queres mais inspiração, este livro é um dos mais inspiradores que li nos últimos tempos.

As manhãs de fim-de-semana também têm imenso potencial. Em vez de ficares na cama mais umas horas, levanta-te, abre as janelas e aproveita para pôr algum trabalho em dia - ou simplesmente para ler um livro, meditar, ou ouvir música. 

Outro período geralmente mal aproveitado são as deslocações para o trabalho. Eu, quando vou a pé, aproveito os 25 minutos de caminho para fazer exercicio físico, ouvir música e pensar. É normal fazer o caminho todo com o sorriso nos lábios, de tão bem que essa caminhada me faz sentir. Quem faz deslocações mais longas pode aproveitar para ler (se não for a conduzir!), pôr trabalho em dia, enviar emails e fazer outras tarefas que exigem menos concentração.

No trabalho, é comum fazermos várias pausas ao longo do dia. Eu já não as faço, só páro mesmo meia hora para almoçar (em breve explico porquê), mas quando fazia pausas de 15 ou 20 minutos, aproveitava para ir lá para fora apanhar Sol e levava o ebook reader para ler qualquer coisa. É verdade que eu sou introvertida e um pouco anti-social, mas preferia aproveitar esse tempo desta forma do que ir para a conversa no bar da faculdade.

Em casa, a televisão é uma das maiores sugadoras de tempo (e a internet também...). Acho que a maior parte das pessoas nem se apercebe do tempo que passa em frente à TV, a fazer zapping e a ver coisas sem interesse, quando podia aproveitar esse tempo (que são várias horas diárias, em muitos casos) para fazer outras coisas. Tratar da casa, destralhar e organizar um armário, trabalhar nalgum projecto, fazer exercício físico, brincar com os miúdos, fazer jogos em família, etc. Eu estou cada vez mais alérgica à televisão e só vejo programas que quero mesmo ver, como Grey's Anatomy, How I met your mother, ou o Mayday, desastres aéreos. A maior parte das vezes ponho-os a gravar e vejo-os quando estou a passar a roupa a ferro.

E vocês, aproveitam bem as 168 horas da semana?


24/10/2012

Planear o ano académico

Um planeamento detalhado e realista das várias tarefas e projectos em que estou envolvida é essencial para conseguir fazer as coisas. No início do ano lectivo, gosto de planear o ano que está a começar. Como pós-doc, com um contrato que é renovado anualmente, tenho que estabelecer objectivos anuais de maneira a ter um ano produtivo que vai depois ser avaliado de forma positiva. Quando estava a fazer o doutoramento, pensava mais a longo prazo, com a finalização da tese em vista. Seja como for, gosto de planear o trabalho prático, como experiências e campanhas de amostragem, os artigos que quero escrever e os congressos a que quero ir. Obviamente que ao longo do ano vão surgindo muitas outras coisas que não estavam inicialmente planeadas, como alunos para orientar, novos projectos de investigação em que me envolvo, experiências que correm mal e têm que ser repetidas, artigos que me mandam para rever, etc. Às vezes, estas tarefas imprevistas são tantas que tenho que alterar o trabalho inicialmente planeado, por isso é necessário haver flexibilidade nos planos - mas também é útil, às vezes, dizer não a novas solicitações.

Actualmente (e depois de usar agendas em papel, Toodledo, Google Tasks e outras ferramentas), uso o Evernote para me organizar, da seguinte forma:

1. Tenho um pilha (ou stack) intitulada "TO DO" que contém vários blocos de notas. Um dos blocos chama-se "Listas" e contém várias notas que são, claro, listas de coisas para fazer.

2. A primeira destas notas é o plano geral para o ano académico. Está dividida em artigos, trabalho prático e apresentações. É aqui que tomo nota dos artigos que quero escrever, trabalho prático que quero fazer e  congressos a que quero ir (e respectivas apresentações). Ponho deadlines mais ou menos realistas para me orientar melhor.

3. Tenho outras notas neste bloco de notas, como uma de tarefas Someday/Maybe @work, outra de coisas para fazer em casa e relacionadas com a família, e listas de "waiting", ou seja, coisas que estou à espera. Estas listas são obviamente baseadas no método GTD.

4. Além do bloco de notas "Listas", tenho um bloco de notas para cada mês do ano (como comecei com este sistema este mês, tenho Outubro, Novembro e Dezembro - não tenho para os próximos 12 meses!), no formato 2012-10, 2012-11 e por aí fora, para estarem devidamente organizados.

5. Em cada um destes blocos de notas mensais tenho uma nota com o mesmo nome, ex. 2012-10. Esta é a minha lista de tarefas para o mês e contém apenas as coisas mais importantes que tenho mesmo que fazer para sentir que o mês foi bom.

6. Além da nota com a lista mensal, tenho uma nota para cada semana (ex., "2012-10-22 a 28"), com as tarefas semanais.  


É com estas notas que me oriento todos os dias. Todas elas têm este formato (tenho outra nota com este template, que é só copiar e colar numa nota nova):

2ªf

3ªf

4ªf

5ªf

6ªf

SEMANA

@ BIG ROCKS

@ computer

@ office

@ lab

@ out/other

Primeiro, planeio as tarefas que têm que ser feitas durante a semana. Escrevo as tarefas debaixo de cada título, usando as caixinhas para fazer o visto. Muitas vezes, quando planeio a semana seguinte, já lá tenho tarefas que adicionei há mais tempo, nomeadamente aquelas que têm uma data já definida, como campanhas de amostragem, reuniões, viagens, etc. Durante a semana vou então preenchendo as tarefas específicas para cada dia, baseando-me nas tarefas da semana e nas coisas que vão surgindo. O objectivo é chegar ao fim da semana com vistos em todas as caixinhas. Quando não completo alguma tarefa, ponho a letra a vermelho, para saber que essa tarefa não foi feita e deve ser passada para a semana seguinte:


Um aspecto essencial do planeamento das tarefas, é especificá-las, detalhá-las ao máximo. Uma tarefa chamada "começar artigo exps. inverno" não diz nada. Deveria ser qualquer coisa como "acabar introdução do artigo" ou "fazer análise estatística". As tarefas têm que ser bem específicas para saber exactamente o que tenho para fazer.

O que eu gosto no Evernote e nas notas é que fico com o registo do que fiz em determinada semana. Acontece-me imenso tentar lembrar-me do trabalho que fiz em certo mês e simplesmente não me lembro. Depois, fico com a sensação que não fiz nada... Assim, fico com as notas guardadas e posso ver o que fiz (e o que não fiz, que fica a vermelho) em determinada semana ou mês.

Resumindo, faço o planeamento do trabalho a vários níveis:

- anual - grandes objectivos que quero alcançar durante o ano
- mensal - tarefas importantes para serem feitas nesse mês
- semanal - tarefas para a semana
- diário - divido a nota da semana em dias, para saber exactamente o que devo fazer em cada dia

No fim da semana, é muito bom olhar para a nota dessa semana e ver todos os vistos!!

Em relação ao google tasks, usei durante uns tempos, mas usava também o Evernote com as listas de tarefas mensais e anuais. Na verdade, foi a Eva, uma aluna de doutoramento que tem um blog que adoro, PhD Talk, que me inspirou a organizar o trabalho e as tarefas desta maneira. A diferença é que ela usa o Word para as suas listas; eu sou fã do Evernote. E até agora tem resultado muito bem!

Se quiseres saber mais sobre o Evernote e outras ferramentas de organização e gestão do tempo, aqui tens mais leitura:

23/10/2012

Escrever para gente da ciência



Além dos vários blogs que sigo sobre minimalismo, simple living, crafts, decoração, etc., gosto muito de ler blogs sobre a parte prática de fazer ciência, isto é, blogs escritos por investigadores e estudantes sobre as dificuldades, as alegrias, os desafios desta vida de cientista. Inspirada por esses blogs e porque há muito que queria partilhar a minha experiência nessa área (afinal, esse é o meu trabalho a sério), criei um outro blog onde comecei a escrever, em inglês, coisas vocacionadas para investigadores, estudantes de doutoramento, e  afins. Nunca partilhei isto antes, mas um sonho que tenho é dar workshops/palestras sobre gestão do tempo, produtividade, equilíbrio trabalho-família, etc., vocacionados para cientistas, e ir às universidades falar sobre estes assuntos. Mas adiante... 

O tal blog começou bem, mas rapidamente percebi que não fui feita para ter dois blogs. Não consigo mesmo gerir a escrita para dois blogs diferentes, e a frequência e qualidade dos textos acabam por ser afectadas. Por isso, pensei, mas porque é que não começo a escrever posts mais direccionados para o mundo académico aqui neste blog? Sei que tenho muitos leitores que são investigadores. Porque não partilhar a minha experiência com outras pessoas? Afinal, ando há mais de 10 anos nesta vida, e já passei por uma licenciatura, um mestrado e um doutoramento. Já escrevi teses, artigos, resumos, já fiz muitas apresentações em congressos, já orientei alunos. Nestes anos todos, já aceitei desafios, ultrapassei dificuldades, fiz amigos e inimigos, e aprendi e cresci muito com tudo isso. Porque não partilhar essas experiências com os meus leitores, e em português?

Então, é isso. Não se assustem se virem alguns posts sobre como escrever artigos, como preparar apresentações ou como resolver problemas no laboratório. A par com o minimalismo, a família, o desporto e algumas outras coisas, a ciência é um dos eixos fundamentais da minha vida. Faz todo o sentido, portanto, partilhá-la um pouco mais convosco!

22/10/2012

100 dicas fáceis, parte II

Obrigada aos leitores que avisaram que o livrinho "100 dicas fáceis para organizar e simplificar a vida" tinha uma das dicas repetidas. Já a substituí por uma que eu adoro e uso sempre cá em casa! Por isso, podem fazer o download da versão corrigida aqui!

17/10/2012

100 dicas para organizar e simplificar a vida

Ora bom dia, e parabéns aos leitores que adivinharam as autorias dos textos de ontem! Para quem não adivinhou, o meu texto era este.



E porque eu gosto de dar prendas aos meus leitores, tenho uma novidade: um novo ebook! (conhecem o primeiro, o Guia rápido para simplificar a vida?)

São 19 páginas, é uma coisa muito básica, mas espero que gostem! E é grátis, basta seguirem este link.

Como se chama ele?

100 dicas fáceis para organizar e simplificar a vida

{O livro está disponível gratuitamente para os subscritores da newsletter do blog}








16/10/2012

Amizade, desapego e felicidade

Uma escreve sobre desapego, minimalismo.

As duas decidiram misturar tudo e escrever sobre amizade.

Consegues adivinhar quem é quem?

...


Eu tenho poucos amigos. Amigos daqueles a quem posso telefonar a qualquer hora para desabafar qualquer coisa, só tenho um. Que, ainda por cima, está fisicamente longe. Os amigos têm vindo e ido ao longo dos anos. Os únicos amigos que sinto que vão ficar para toda a vida, mesmo que hoje em dia possamos estar 2 ou 3 anos sem nos vermos, são os amigos do tempo da escola, aqueles que conheço desde muito pequena. Podemos estar anos sem nos falarmos, mas quando estamos juntos, é como se o tempo não tivesse passado. 

Em relação ao amigos que fiz em adulta, a história é diferente. Umas amizades fizeram sentido numa dada altura, mas depois cada um vai para o seu lado, conhecem-se outras pessoas, ou simplesmente deixamos de ter coisas em comum - será que alguma vez tivemos? Eu ainda me esforçava para tentar recuperar estas amizades, mas apercebi-me que as amizades não têm que ser forçadas. O interesse ou está lá ou não está. Para quê perder uma ou duas horas num cafezinho com alguém que não adiciona nada à minha vida? Prefiro gastar essas horas com a família, com o trabalho, ou com outras actividades que me fazem feliz. 

Por outro lado, tenho vários conhecidos, sobretudo colegas de trabalho, com quem acho que poderia vir a desenvolver uma relação de amizade mais próxima. Mas como dar esse passo? Como passar de colega a amigo, se eu no trabalho não me perco em conversas de corredor ou em cafezinhos no bar? Já pensei fazer umas jantaradas cá em casa, mas introvertida e anti-social como sou, só de pensar nisso perco logo a vontade...

É verdade, há uma série de pessoas que eu gostava de ter mais presentes na minha vida. Estou a pensar especificamente em duas pessoas que já foram grandes amigos meus, mas lá está, a vida acontece e deixamos de nos cruzar. Por acaso, cruzei-me com um deles a semana passada. Boas lembranças, saudades dos momentos juntos, mas será que ainda existe ali alguma coisa que nos una? Sem tentar não sei, por isso vou empenhar-me para ver se essas antigas amizades ainda fazem sentido hoje. Outras dessas amizades sei bem que já não fazem sentido, por isso não vale a pena continuar a insistir em cafezinhos que nunca acontecem nem ir a jantar de anos que são um martírio. Já cheguei a ir a jantares de anos de um amigo, não pelo amigo aniversariante, mas pelas outras pessoas que também iam lá estar... Enfim... isto das amizades é uma área na qual devia investir mais do meu tempo, pois não há dúvida que os amigos, os verdadeiros amigos, aqueles que se contam pelos dedos de uma mão, arrancam-nos sempre um sorriso dos lábios. E isso é muito bom.

...


Quero acreditar que tenho atitudes que me facilitam a vida (claro que tenho outras em que me saboto, mas isso é outra história). E uma delas é a minha atitude em relação à amizade e que é tudo menos romântica. É essencialmente prática que é para não me complicar a vida.
Este texto é sobre amigos que passaram pela minha vida e que já não fazem parte dela. Não é um post sobre como manter amizades e relações. É sobre o desapego.

Dizem que o maior ‘boost’ de felicidade é-nos dado pelos amigos. Essa felicidade é maior se esses amigos já o forem há algum tempo. Se forem pessoas que nos acompanham desde sempre e com os quais as nossas memórias e experiências (boas ou más) estão bem guardadas e partilhadas.

Tenho poucos amigos. Muito poucos, mesmo. Acredito que não se pode ser amigo de toda a gente. E, como toda a gente, tenho imensos conhecidos. Depois tenho o ‘pessoal’ do meio. Aquelas pessoas com quem gosto muito de estar, que frequento mas a quem não vou ligar depois das 10 da noite.

O que é que eu sei sobre a amizade? Penso que as pessoas passam pelas nossas vidas com uma missão. E que depois permanecem o tempo que necessitamos e seguem as suas vidas. E quando seguem, é deixá-las ir - não cobro porque não ligam, porque não vamos tomar um café. Porque se eu já não fazemos grande coisa na vida deles (por isso mesmo é que deixaram de ligar), o inverso também (pode ser) é verdade.

Ligar porque tenho saudades, porque quero saber novidades e porque gostava mesmo muito de ir tomar um café como antigamente, sim! Sem cobrar! Porque se não houve uma zanga ou um motivo para as pessoas se separarem, então é porque é parte da vida. O Miguel Esteves Cardoso diz que os amigos devem ser escolhidos. Eu não poderia concordar mais com ele.


E aqueles que eliminei da minha vida mesmo a sério, porque eram tóxicos, porque ocupavam demasiado tempo e gostavam muito de cenas de novelas mexicanas, não lhes sinto a falta. Olho para eles e digo que um de nós, ou até os dois, não encaixávamos ali, naquela amizade. Porque simplesmente somos e temos expectativas diferentes. E a vida é mesmo assim: não dá para agradar a deus e ao diabo ao mesmo tempo. É possível que nos reencontremos daqui a uns tempos e tenhamos evoluído. E se nesse momento a relação for possível, óptimo! Se não for possível, não faz mal.


Até porque não é possível ser amigo de toda a gente, a todo o momento, e para o resto da vida. Porque eu acredito que é saudável chutarmos para canto amizades tóxicas, como qualquer outra coisa que não nos faça bem. Há pessoas que estiveram muitos anos nas nossas vidas e, de repente, percebemos que já não falamos com elas há um ano. Não por nada em especial, apenas porque a vida é mesmo assim.

Se vou cobrar? Era mesmo só o que me faltava. A mim e ao outro que tem, com certeza, mais que fazer… Mas se calhar vou ligar a dizer que tenho saudades e que quero ir tomar um café. E isso faz toda a diferença!

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