Tenho que admitir que nunca li livros sobre parentalidade. Leio um só blog sobre o assunto, o Mum's the Boss, e nada mais. Há uns tempos li uma review do livro Simplicity Parenting: using the extraordinary power of less to raise calmer, happier, and more secure kids, de Kim John Payne (qualquer coisa como Parentalidade simples: usando o poder de menos para criar crianças mais calmas, felizes e seguras), e fiquei com a pulga atrás da orelha.
Quis ler este livro porque tenho um problema com os meus filhos, grande parte do qual é culpa nossa... Eles passam demasiado tempo em frente a écrans - seja a televisão, o computador, o gameboy, a playstation e outras coisas do estilo. Nos últimos tempos fizemos grandes progressos neste campo, pois passámos de 4 para 1 televisão em casa e passamos agora mais tempo a fazer outras actividades, mas de qualquer modo precisava de mais ideias para lidar com este e outros problemas... Lá comprei o livro (a versão kindle), li-o, reli alguns capítulos e este é sem dúvida um livro de referência para qualquer pai. Achei o livro fantástico!
O capítulo 1, Why Simplify?, responde a isso mesmo - a importância de simplificar o ambiente, as rotinas, a vida das crianças. O autor apresenta exemplos de crianças com quem trabalhou, os seus problemas, as alterações que foram feitas e os resultados positivos que foram obtidos.
Gostei sobretudo do estudo feito em crianças com distúrbio de déficit de atenção (um dos meus filhos tem ADHD, nada de grave, mas tem). Em primeiro lugar, o autor discorda do termo distúrbio de déficit de atenção e hiperactividade; muitas destas crianças conseguem estar muito atentas, não conseguem é priorizar o objecto da sua atenção (e por experiência própria, sei que é mesmo assim). As crianças foram submetidas a um regime de simplificação, que incluiu alterações no seu ambiente físico, na alimentação, no uso de tecnologias (écrans...), e nas suas actividades e horários. Os resultados foram fantásticos; 68% destas crianças passaram de clinicamente disfuncionais para clinicamente funcionais ao fim de 4 meses de simplificação! Comecei a ver luz ao fundo do túnel! O meu filho é medicado há cerca de 1 ano, a medicação tem efeitos muito positivos, mas queria seguir outro tipo de terapias (incluindo o yoga e a meditação) e assim evitar a medicação.
O capítulo 2, Soul Fever, faz uma analogia muito interessante entre a febre física e o que o autor chama de febre da alma. A febre da alma ocorre quando a criança está assoberbada, quando tem que lidar com muitas coisas, muito stress, quando a sua vida é demasiado apressada. O autor descreve os passos para os pais identificarem essa febre da alma e para a acalmarem, simplificando a vida da criança (geralmente um fim de semana simples é o suficiente para fazer a diferença) e dando-lhe tempo sem nada para fazer.
O terceiro capítulo, Environment, lida com o ambiente em que vive a criança. Por exemplo, o autor afirma que demasiados brinquedos dão às crianças demasiadas escolhas - e ter demasiadas escolhas não é bom para uma criança, pois distrai-a do seu crescimento natural. As crianças precisam de tempo para se tornarem elas próprias, através da brincadeira e da interacção social; uma criança assoberbada com coisas - e escolhas e pseudoescolhas - aprende apenas uma coisa: a querer mais! O autor acredita, portanto, que o número de brinquedos de uma criança deve ser reduzido. O excesso de brinquedos pode mesmo privar a criança de desenvolver a sua criatividade, pois a frustação de não ter nada para fazer impulsiona muitas vezes descobertas e criações maravilhosas. Ao diminuir a quantidade de brinquedos e tralha à volta da criança, aumenta a sua capacidade para se envolver mais seriamente na brincadeira, em vez de passar de um brinquedo para o outro sem na verdade brincar com nenhum. Neste capítulo o autor refere ainda os tipos de brinquedos que devem ir fora e dá dicas para destralhar e organizar os brinquedos que ficam. O mantra é, claro, menos é mais.
O capítulo 4, Rhythm, trata das rotinas diárias, ou ritmos, como outros autores também preferem chamar. A vida da maioria das famílias hoje em dia é aleatória e improvisada. Os ritmos são, no entanto, importantes para as crianças. As crianças cedo percebem que há coisas com as quais podem sempre contar, como a hora do banho, a história antes de ir dormir, e esta previsibilidade no dia a dia das crianças dá-lhes segurança. Estabelecer ritmos diários bem definidos é uma das maneiras mais eficazes de simplificar a vida das crianças (e a dos pais também). Ao longo deste capítulo, o autor explica como estabelecer ritmos diários que dêem consistência ao dia da criança e que fortaleçam os laços familiares.
No quinto capítulo, Schedules, é tratado um fenómeno muito presente hoje em dia nas crianças em todo o mundo ocidental - o overscheduling - horários demasiado preenchidos, muitas actividades extra-curriculares além da escola, que conduzem a muito pouco tempo livre. O autor afirma que as crianças precisam de tempo livre, tempo não estruturado - tempo para não fazer nada. Tal como uma planta sem raízes, actividade sem descanso é insustentável. O autor sugere que as actividades que causam stress à criança (por exemplo, ter a casa cheia de familiares pode assoberbar um filho único) devem ser compensadas com actividades que a acalmam (por exemplo, ir dar um passeio de bicicleta com a criança). O estabelecimento de dias de Sabbath, ou seja, um dia por semana extremamente calmo, com o mínimo de tecnologia e distracções, é também uma boa estratégia para simplificar a vida familiar.
O último capítulo é muito interessante - Filtering the adult world. É sobre separar o mundo dos adultos do mundo das crianças e começa com o pior visitante que a maioria de nós tem em casa - a televisão. Segundo o autor, um passo crítico para simplificar a vida das crianças é simplificar os écrans que temos em casa: tv, computador, consolas de jogos, etc. Simplificar os écrans é parar o fluxo de informação, de pressa e de sobre-estimulação a que as crianças estão sujeitas ao longo do dia. Embora a televisão também tenha benefícios, as suas desvantagens pesam mais, sobretudo para crianças com menos de 7 anos. Por exemplo, assistir a desenhos animados violentos diminui a sensibilidade das crianças para a violência, tornando-a menos chocante e mais aceitável. Ao ler este capítulo fiquei muito feliz por finalmente ter conseguido tirar a tv do quarto dos miúdos: um estudo indica que as crianças que têm televisão no quarto vêem em média mais 90 minutos por dia de tv do que as que não têm. De facto, noto que os meus filhos passam agora muito menos tempo agarrados à televisão do que antes. Este capítulo aborda ainda o problema dos pais-galinha e o autor afirma que o excesso de preocupação destes pais vem da sua exposição excessiva aos meios de comunicação social (que só nos bombardeiam com desgraças). Por exemplo, tal como num avião em caso de despressurização devemos colocar primeiro a nossa própria máscara de oxigénio e só depois ajudar as crianças, os pais também devem primeiro relaxar para depois transporem essa calma para os seus filhos - e a redução da exposição à tv e outros meios é essencial neste processo.







