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21/02/2014

O que podemos aprender com Benjamin Franklin

Benjamin Franklin (1706-1790) foi um dos pais da Revolução Americana, autor, editor, diplomata, filantropo, inventor, músico e muitas outras coisas. É a cara das notas de 100 dólares. Foi um homem de muito sucesso e uma das coisas que contribuiu para tal foi a sua disciplina.

Ben Franklin seguia uma rotina diária e esta imagem, publicada num dos seus livros, é famosíssima, pois mostra que já no século XVIII, antes da televisão, da internet e de outras distrações, uma rotina bem definida era necessária para um dia produtivo.

A rotina diária de Benjamin Franklin

Benjamin Franklin era um homem que procurava ser cada vez melhor e evoluir a nível moral. Para tal, definiu 13 virtudes que funcionavam como um código de conduta moral, ou seja, as regras segundo as quais deveria viver a sua vida. São elas:

1. Temperança
2. Silêncio
3. Organização
4. Determinação
5. Frugalidade
6. Diligência
7. Sinceridade
8. Justiça
9. Moderação
10. Limpeza
11. Tranquilidade
12. Castidade
13. Humildade

As 13 virtudes de Ben Franklin (via).

Franklin anotava num bloco o seu progresso no cumprimento deste código moral, para ter a certeza que tomava atenção a cada uma destas virtudes no seu dia a dia.


Franklin também nos deu uma das primeiras descrições de uma técnica de tomada de decisão muito usada hoje em dia: as listas de a favor e contra.

Mas, afinal, o que é que podemos aprender com Benjamin Franklin?

Resumidamente, diria que o exemplo de Benjamin Franklin poderá inspirar-nos a sermos pessoas melhores. A evoluir, a sermos quem queremos ser.

Estabelecer uma rotina diária e regras de conduta são, para mim, uma parte essencial de uma vida com produtiva e feliz.

A rotina diária ajuda-nos a planear o dia e a focarmo-nos nas nossas prioridades e as regras de conduta ajudam-nos a lidar com situações complicadas do dia a dia. 

Desde que abracei a espiritualidade e, especificamente, o yoga, tento ter os yamas e niyamas sempre presentes.

Os yamas são as restrições do yogi, ou seja, aquilo que não se deve fazer. Os 5 yamas são:

> Ahimsa - não violência
> Satya - não roubar
> Asteya - não mentir
> Brahmacharya - moderação
> Aparigraha - não possessividade, desapego

Os niyamas são as observâncias, isto é, o que o yogi deve fazer. São também 5:

> Saucha - limpeza, pureza
> Santosha - contentamento, gratidão por aquilo que temos
> Tapas - auto-disciplina
> Swadhyaya - auto-estudo
> Ishwara-Pranidhana - rendição ao Absoluto, ao Divino

Não tenho nenhum bloco onde aponto a atenção que dou a cada uma destas qualidades, mas tento tê-las presentes no dia a dia. Ahimsa, a não violência, é um yama que muitos yogis seguem, pelo menos a nível da alimentação - é por isso que muitos são vegetarianos. Trabalhei muito o desapego, Aparigraha, quando me tornei minimalista e consegui desapegar-me de muita coisa, tanto física como mental. Tapas, a auto-disciplina, é o que faz com que os yogis se levantem de madrugada para praticar. Uns yamas e niyamas são mais fáceis de compreender e de cumprir que outros, mas todos eles fazem parte deste caminho a ser percorrido... até à iluminação... ;)




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28/10/2013

O que é o Tantra (e o sexo tântrico, claro)

O Tantra é uma corrente espiritual, um conjunto de práticas que surgiu na Índia há milhares de anos, possivelmente revelado por Shiva; no entanto, a grande expansão do Tantra deu-se mais tarde, no século VIII d.C., e a escritura fundamental do Tantra, Kula Arnava Tantra, surgiu apenas no século XII d.C. 

Ao contrário do Vedanta, o Tantra rejeita a autoridade dos Vedas. Esta corrente surgiu como resposta ao desejo das pessoas simples, não ligadas a uma vida mais espiritual nos templos, de terem um sistema prático que lhes permitisse manter a sua fé e cultivar a sua espiritualidade. O Tantra baseia-se fortemente no princípio feminino, ou seja, dá muita importância à Deusa, a mãe do Universo, à parte feminina, à energia feminina, Shakti. A mulher é o mestre no Tantra, o que contrasta com as outras tradições que giram em torno do masculino. De facto, pode dizer-se que o Absoluto manifesta-se em duas polaridades: masculina, ligada a Shiva, uma energia passiva, parada; e feminina, ligada a Shakti, uma energia activa, em movimento.

O Tantra pretende a integração do eu com o si mesmo, ou seja, a integração da realidade do corpo com a realidade espiritual. O ponto de partida para alcançar este objectivo é o corpo. De facto, para o tantrika, o praticante de Tantra, o corpo é o templo do espírito, ou seja, é necessário cuidar do corpo, mantê-lo forte e saudável para que o Absoluto se manifeste. No Tantra procura-se ancorar a realidade corpórea à busca espiritual; o corpo serve, portanto, de base a esta busca. 

No Tantra Yoga, o principal objectivo é despertar a energia kundalini, Shakti, e fazê-la subir pela nadi sushumna. A união de Shakti com a energia masculina, Shiva, é, para o tantrika, uma união divina. Quando as duas energias, feminina e masculina, se encontram, elas complementam-se, formando uma só realidade. 

Os conceitos de energia kundalini, nadis, chakras, etc., tão presentes no Hatha Yoga, foram desenvolvidos pelo Tantra. O Tantra Yoga parece, assim, ser uma prática mais fácil para atingir o Absoluto do que, por exemplo, o Yoga clássico de Patanjali, que é mais racional e científico, ou o Jnana Yoga, que é mais abstracto. 

No entanto, o tantrika corre o perigo de ficar apegado ao corpo e dependente do prazer que as práticas tântricas lhe proporcionam. De facto, desequilíbrios na energia kundalini podem originar graves problemas físicos no praticante. Por este motivo, a prática do Tantra deve ser sempre acompanhada por um Mestre; o Tantra dá, inclusive, grande importância à relação Mestre-Discípulo, pois as práticas têm perigos que o praticante, sozinho, poderá não conseguir ultrapassar.

A entoação de mantras é prática comum no Tantra Yoga para fazer subir a kundalini, sendo uma técnica que liberta a mente dos pensamentos e preocupações. Os mantras são sons carregados de poder sagrado que representam uma expressão de uma consciência mais evoluída. De acordo com o Tantra, o mantra pode ter um de três objectivos: a) pacificar as forças do Universo, isto é, manter o Universo em paz; b) adquirir coisas através de magia; e c) promover a identificação do praticante com um determinado aspecto da realidade (uma divindade, o cosmos, qualquer coisa). 

Os yantras, símbolos geométricos (semelhantes aos mandalas do budismo, mas não tão circulares e simétricos), são também usados no Tantra Yoga para entrar em estados meditativos.

Existem cinco rituais no Tantra Yoga, os 5 M’s, também conhecidos por Panchamakara: Madya (vinho), Matsya (peixe), Mamsa (carne), Mudra (cereais) e Maithuna (coito). Os textos antigos onde estes rituais foram descritos eram de difícil compreensão e isso originou diferentes interpretações do seu significado, o que se traduziu no surgimento de duas escolas distintas de Tantra: a escola da mão direita e a escola da mão esquerda. 

A escola da mão direita acredita que estes textos antigos estão codificados, não podendo os escritos ser levados à letra. Assim, os tantrikas da mão direita acreditam, por exemplo, que Madya significa ficar embriagado com o absoluto, Matsya é um símbolo do conhecimento e Mamsa é uma união espiritual do feminino e masculino.

Os adeptos da escola da mão esquerda interpretam de forma mais literal os textos. Assim, por exemplo, Maithuna é a relação sexual entre o homem e a mulher. A faceta mais conhecida do Tantra no mundo ocidental, o sexo tântrico, é um desses rituais realizados pela escola da mão esquerda, que vê a união sexual entre homem e mulher como um acto divino, uma forma de espiritualidade. O sexo tântrico é também conhecido por ser mais prolongado (3-6 horas), pois os tantrikas desenvolveram técnicas para não perder o esperma, visto que a ejaculação é sinónimo de perda de energia. À mulher é permitido atingir o orgasmo, mas não ao homem; assim, as técnicas para conter o sémen permitem que a relação sexual dure horas e seja atingido o êxtase, mas não o orgasmo. 

O problema dos adeptos da escola da mão esquerda é o desenvolvimento de dependências, quer de sexo, quer de substâncias alucinogénicas que são usadas nos rituais. Os tantrikas acreditam também que cada pessoa tem oito gotas de ojas no corpo, sendo o ojas o elixir da imortalidade, o néctar da vida; o sémen faz aumentar a produção de ojas, e daí o motivo para não haver ejaculação. Estes rituais tântricos têm como objectivo tornar o corpo do praticante no corpo de uma divindade escolhida.

O Tantra foi ainda a primeira escola a preocupar-se com o desenvolvimento dos poderes psíquicos, os Siddhis. No Yoga clássico e Vedanta, os Siddhis são algo que se deve ultrapassar, mas os tantrikas querem ter Siddhis, pois estes poderes permitem-lhes alcançar os seus objectivos espirituais de forma mais rápida.


25/10/2013

O que é o Hatha Yoga

Yoga é um termo genérico que engloba várias filosofias que tiveram origem na Índia Antiga. Embora no mundo ocidental o Yoga esteja mais associado à prática do Asana, as técnicas corporais, existe uma série de outras práticas que fazem parte do Yoga. A importância relativa que cada filosofia dá a estas várias práticas traduz-se na existência de diversos tipos de Yoga. Como exemplos podemos referir o Bhakti Yoga, yoga da devoção, o Karma Yoga, yoga da acção, Jnana Yoga, yoga do conhecimento, Mantra Yoga, yoga dos mantras, ou o Raja Yoga, o yoga clássico de Patanjali, o yoga real.

O Hatha Yoga é um tipo de Yoga que tem uma componente física mais acentuada. No entanto, o objectivo geral de todos os tipos de Yoga é o mesmo: atingir o Samadhi, o estado de super-consciência ou, de acordo com Patanjali, cessar as flutuações da consciência. De acordo com o Hatha Yoga Pradipika, considerado o texto fundamental do Hatha Yoga, esta prática é, no fundo, uma escada para o Raja Yoga, o yoga real, aquele que engloba todas as outras vertentes do Yoga.

O Hatha Yoga tem ainda como objectivo desenvolver o potencial do corpo para suportar o transcendente, pois só com um corpo forte, saudável, vigoroso, é possível chegar ao Samadhi. Sendo o corpo o templo do espírito, o yogi pratica para criar um corpo divino, pois se o corpo não estiver bem, o espírito não se manifesta. O Hatha Yoga pode ainda ser visto como uma alquimia espiritual – a transformação da energia para um estado mais perfeito. O praticante de Hatha Yoga pretende, em última análise, garantir a sua imortalidade.

A influência do Tantra, uma filosofia que surgiu na Índia cerca do século V d.C., está bem patente no Hatha Yoga. Até aí, o Yoga era praticado apenas por certas castas sociais; pelo contrário, o Hatha Yoga, tal como o Tantra, é uma prática aberta a qualquer pessoa. A influência do Tantra no Hatha Yoga observa-se também na elevada importância que tem o conhecimento energético (nadis, chakras, etc.) nesta prática. 

O Hatha Yoga pretende, assim, a ascensão da energia kundalini, a energia Shakti, feminina, que está adormecida no 1º chakra. A sua ascensão pela nadi central sushumna e a sua união com Shiva no 7º chakra é o que permite a superação do ego e o estado de super-consciência. A união do feminino e masculino é, para o Tantra, um acto divino, e Shakti e Shiva representam o casal divino. Estes conceitos energéticos, tão importantes no Hatha Yoga, derivam da filosofia tântrica e estão ausentes nos Yoga Sutras de Patanjali.

Além de aperfeiçoar o corpo, o praticante de Hatha Yoga pretende também desenvolver poderes psíquicos. O Hatha Yoga teve, na verdade, origem em gurus que percorreram este caminho e atingiram a perfeição, os Siddhas. Matsyendra Natha, o senhor dos peixes, foi um destes gurus, associado à escola Natha. O seu discípulo, Goraksha Natha, que viveu no século VIII d.C., é considerado o pai do Hatha Yoga. No entanto, o primeiro senhor, Adi Natha, aquele que fundou este sistema de Yoga e ensinou milhares de posturas, foi Shiva.

Apesar do Yoga ser uma tradição com milhares de anos no subcontinente indiano, só no início do século XX da nossa era é que o Yoga começou a ser introduzido no Ocidente. Vários mestres indianos desempenharam papéis fundamentais não só no estudo do Yoga, como também na sua divulgação fora da Índia. Entre eles podemos destacar Vivekananda, Yogananda (autor do best-seller Autobiografia de um Yogi), Sivananda, Satyananda, Ramakrishna Paramahansa e Krishnamacharya. Este último foi o professor, em Mysore, no sul da Índia, de dois grandes mestres do Hatha Yoga moderno: B.K.S. Iyengar, fundador do Iyengar Yoga, e de K. Pathabbi Jois, fundador do Ashtanga Vinyasa Yoga, dois estilos de yoga muito populares no mundo ocidental.

20/10/2013

O Yoga e o seu objectivo

O Yoga pode ser definido como um método essencialmente prático que conduz ao Samadhi, um estado de super-consciência, que permite ao yogi uma descoberta de si mesmo, do seu “eu” essencial. 

No entanto, a palavra Yoga pode ter significados distintos. De acordo com a filosofia yoguica dos períodos pré-clássico e pós-clássico, Yoga traduz-se por “união”; porém, durante o período clássico associado a Patanjali e à sua colecção de aforismos Yoga Sutras, Yoga entende-se como “separação”. Patanjali define ainda Yoga como a cessação das flutuações da consciência.

A descoberta do “eu” essencial traduz um estado de Samadhi, o qual representa uma experiência psico-mental na qual o sentido da individualidade é perdido. É, basicamente, um estado de felicidade. O Yoga proporciona ao yogi as ferramentas para criar uma felicidade que vem de dentro e que não é influenciada por factores externos.

No entanto, a busca do absoluto pelo yogi é dificultada pela existência do ego. Quanto maior o ego, maior é a separação entre o indivíduo e o todo. O ego acentua a individualidade e dá ao praticante uma visão estreita da realidade. O yogi trabalha no sentido de superar o ego e, assim, tomar consciência de si mesmo. No fundo, o Yoga permite ao praticante uma viagem de volta à sua consciência.

De acordo com o Vedanta, todo o Universo é Maya, a ilusão cósmica, isto é, a vida em si é uma ilusão. O yogi tenta superar esta ilusão. Para tal, precisa de trabalhar o desapego, Vairagya. O apego às coisas e pessoas é o que provoca o sofrimento e a dor, uma vez que nos identificamos com a realidade que os nossos sentidos sentem. Não são os outros, mas sim cada pessoa é que é responsável pelo seu sofrimento. 

Tendo conhecimento deste facto, o ego pode então ser superado pelo yogi, através das práticas do Asana (posturas psico-físicas), Pranayama (respiração), Dhyana (meditação), etc., e assim atingir o Samadhi. Esta é uma viagem interior, ou seja, uma experiência de entasis, em oposição a experiências de extasis que são conseguidas através de outras práticas como, por exemplo, o xamanismo.

Voltando ao significado da palavra Yoga, a “união” refere-se à união do indivíduo com o todo, o microcosmos com o macrocosmos. O conceito de Yoga como “separação” do período clássico refere-se à separação da natureza e do espírito. A natureza (Prakriti) e o espírito (Purusha) estão presentes em cada pessoa. No fundo, o espírito diverte-se na natureza, no que é denominado de Lila, o jogo cósmico. O Yoga permite ao praticante a separação destes dois componentes, ou seja, permite ao yogi estar na presença do “si” próprio, da sua própria consciência. Esta separação de Purusha e Prakriti conduz ao Kaivalya ou Moksha, um estado de felicidade permanente.

Kaivalya é, no fundo, um estado permanente de Samadhi. É semelhante ao conceito de Nirvana do Budismo. Em termos práticos, Kaivalya é a descoberta e manutenção de um estado de felicidade que já existe dentro de cada pessoa. É uma libertação do ego, do materialismo e de tudo aquilo a que o ser humano se apega.

Para saber mais:



Escrito por um académico e, portanto, baseado em factos e imparcial (digo isto porque, como em tudo, também há fundamentalismos no yoga), é um dos melhores livros sobre a história do yoga (e a literatura, a filosofia e a prática, tal como o título indica).

07/09/2013

O que é o Bhagavad Gita


O Bhagavad Gita é um dos textos fundamentais não só do Yoga, mas de toda a cultura indiana - é o guia espiritual da tradição Hindu. É um texto geralmente estudado nos cursos de yoga e a sua influência no mundo ocidental é imensa, sendo um clássico incontornável da filosofia e espiritualidade mundiais. A obra continua tão actual hoje em dia como há mais de 2 mil anos atrás, quando foi escrita.

O B. Gita é na verdade um poema que faz parte de uma obra enorme, o Mahabharata, que encerra em si a essência da Índia. O Bhagavad Gita foca-se no Dharma, que pode ser entendido como o destino de cada um, a essência de uma pessoa, ou a maneira como devemos agir, tendo em consideração quem somos. 

A história do Gita centra-se no Príncipe Arjuna e no seu desespero por ter que combater contra a sua própria família. Arjuna pede auxílo ao seu cocheiro, que é na verdade Krishna, e este guia Arjuna pelas suas inquietações, fazendo-o perceber o seu Dharma.

O guerreiro Arjuna representa a mente consciente de cada um de nós, aquela que nos faz escolher e tomar decisões sobre o modo como vamos viver a nossa vida. Os familiares de Arjuna contra os quais ele se prepara para combater representam os nossos impulsos gananciosos e egoístas. Krishna é a centelha divina que temos dentro de nós, o nosso Eu Superior, que está sempre disponível para nos guiar pelo vida, se procurarmos a sua ajuda.

A história do Bhagavad Gita centra-se na mensagem de Krishna para Arjuna, ou seja, a mensagem do nosso Eu Superior para a nossa mente consciente, que pode ser dividida em três partes.

Primeiro, em todas as nossas acções devemos fazer aquilo que está certo, e não aquilo que nos dá mais jeito, é mais confortável ou conveniente, o que se traduz no Karma Yoga, o yoga da acção.

Em segundo lugar, se agirmos de forma correcta e convictos de que tudo acontece devido a um plano divino, os frutos das nossas acções serão sempre positivos. Este é o caminho para o Bhakti Yoga, o yoga da devoção.

Por fim, só saberemos o que devemos fazer, qual a acção correcta a tomar, se primeiro nos conhecermos realmente, se soubermos verdadeiramente quem somos. Arjuna percebe no fim que ele é, de facto, o seu Eu Superior, o que lhe dá o conhecimento de que precisa para escolher entre as várias alternativas; este é o caminho do Jnana Yoga, o yoga do conhecimento.

O Bhagavad Gita é a celebração da paz e harmonia interiores no meio das confusões da vida, assegurando-nos que temos dentro de nós todas as respostas para as questões, confusões e angústias que vão surgindo ao longo da vida. Para tal, devemos apenas estar atentos a esse poder interno para saber quem somos e como devemos agir.

02/02/2013

É difícil não ter expectativas

Um dos princípios que o Leo Babauta refere para viver uma vida sem esforço (no seu livro The Effortless Life) é não ter expectativas. Como ele diz, a maioria do stress, irritação, desapontamento, frustração e raiva que sentimos vêm das expectativas que temos, mas as coisas, invariavelmente, não correm como queremos. O Leo diz que devemos deitar as expectativas fora. Não precisamos ficar desapontados ou zangados com as coisas - ou ficamos um bocadinho mas depois deixamos ir...

Esta semana aconteceram duas coisas que me fizeram pensar nisto.

A primeira foi uma pessoa profissionalmente próxima de mim que desistiu do projecto em que estava envolvida connosco, por motivos financeiros e pessoais. Foi mais de uma semana de trabalho intenso para o lixo e muito dinheiro gasto para nada. Não fiquei chateada nem triste. As coisas são como são. Nesta situação consegui deixar ir as minhas expectativas e não pensar mais no assunto.

A segunda foi a festa de anos de um dos meus filhos. Marquei o sítio, fizemos a lista de meninos a convidar e entregámos os convites. De 13 convites entregues, apenas 4 pessoas me telefonaram a responder. Não me chateia que as pessoas não possam ir à festa - o que me chateia mesmo é as pessoas não responderem ao convite. Custa assim tanto mandar um sms a dizer que o filho não pode ir? Já fiz muitas festas para os miúdos e foi a primeira vez que isto aconteceu - em 13, 9 pessoas nem sequer responderam. Não consigo evitar ficar chateada. Não é por mim, que quantos menos forem, menos pago, mas pelo miúdo. Começo logo a pensar no porquê de tanta gente não responder... será que não gostam de mim? (eu não conheço a maior parte dos pais,  por isso não deve ser esse o problema) Será que os miúdos não gostam do meu filho? (acho que ele é popular, e os miúdos costumam querer ir às festas todas, gostem ou não do aniversariante) Será que as pessoas não querem gastar dinheiro em presentes e optam por ignorar o convite? Ou será que os miúdos enfiam os convites nas mochilas e esquecem-se de os entregar aos pais? (os meus nunca se esqueceram de me entregar os convites...)

Portanto, estou chateada. Sim, tenho expectativas. Quando convido alguém para uma festa, espero uma resposta, seja ela positiva ou negativa. 

E isto leva-me a outro conceito - a equanimidade. A equanimidade é uma das 4 nobres verdades do budismo e significa, resumidamente, ter serenidade de espírito. É não julgar as coisas, não classificá-las como boas ou más. A equanimidade pratica-se com a meditação e permite-nos viver no momento presente sem sofrimento.

Em relação à primeira situação que descrevi, consegui não julgar, não classificar - e portanto, estou em paz com o que aconteceu. Em relação à segunda situação, não consigo. Estou chateada e com vontade de fulminar com o olhar estes pais que não respondem ao convite.

Portanto, vou meditar um pouco para ver se isto me passa...

Actualização 3/Fev
No sábado ligaram mais três pessoas. Portanto, 6 pais não disseram nada. Praticamente metade.

O miúdo nunca se chateou com isto - eu é que fiquei chateada com a situação. Mas felizmente que no sábado fui fazer o nível 1 de Reiki... As pessoas são mal educadas, esquecidas, despreocupadas, distraídas? O problema é delas, não é meu. E acredito na lei do Karma.
Foram 9 miúdos à festa, incluindo os meus 2, e foi uma festa fantástica!

18/12/2012

O minimalismo, o budismo e uma vida sem esforço

Há tempos recebi um comentário que me pedia para falar um pouco sobre como é que o minimalismo se relaciona com a religião e a espiritualidade. Nunca falei disso aqui no blog por um motivo muito simples: não sou religiosa. Metade da minha família é católica, metade é ateia, e eu segui a via do ateísmo.

Do budismo, nunca soube muito. Sempre associei os monges budistas a pessoas carecas, que se levantam cedo, passam horas a meditar, são auto-suficientes, vegetarianos, e são das pessoas mais calmas e pacíficas do mundo. E sabia que Dalai Lama é um título, não o nome da pessoa.

Comecei a ler mais sobre o budismo, sobretudo o budismo zen (um dos muitos ramos do budismo), quando percebi que o autor do "Smile, breathe, and go slowly", um mantra muito presente no Zen Habits, é um monge zen, Thich Nhat Hanh. E comecei a perceber que os princípios do minimalismo são, de facto, princípios do budismo. É como se o minimalismo fosse uma adaptação do budismo à vida moderna.

Em primeiro lugar, o budismo não é apenas uma religião. É uma filosofia, um estilo de vida. O que me agrada no budismo é que não há uma adoração a entidades sobrenaturais; apesar do budismo não negar a existência desses seres, não lhes confere poderes de criação, de julgamento ou de salvação. O budismo baseia-se no ensinamentos de Siddhartha Gautama, um príncipe hindu que viveu algures entre os séculos VI e IV A.C. O budismo zen é um ramo do budismo que nasceu na China no século VI D.C. e foi fortemente influenciado pelo taoismo (os conceitos de yin e yang e aquele círculo metade preto e metade branco, sabem?).

Muitos dos ensinamentos do budismo estão bem patentes no minimalismo moderno. Devemos ter o essencial, viver de forma simples, fazer uma coisa de cada vez, desacelerar, fazer menos, mas fazer o que é importante, criar rituais (ou rotinas, ou hábitos). 
Não devemos sentir apego às coisas (de acordo com o budismo, esse apego é a fonte da infelicidade, pois nada é permanente). 
Devemos viver de forma atenta e consciente. Viver no presente, e não no passado ou no futuro. Sermos felizes com o que temos agora, neste momento, em vez de abdicarmos da felicidade agora para perseguir objectivos que nos poderão trazer felicidade no futuro. Aliás, o viver sem objectivos que vários minimalistas têm abraçado não é nada mais que focar no presente, tal como ensina o budismo. 

Indo um pouco mais além, o budismo fala das quatro meditações ilimitadas: o amor, a compaixão, a alegria e a equanimidade. O amor é querer que os outros sejam felizes. A compaixão é querer que os outros não sofram. A alegria é ficar feliz pela felicidade de outrém. E a equanimidade é ter um estado de espírito tranquilo que não seja regido pela agitação ou pela ilusão. O Leo Babauta refere que cultivar a equanimidade não é fácil (embora melhore com a prática) e é o que lhe permite manter a mente sã. 

Mas afinal o que é que isto tem a ver comigo?

Eu planeava ao pormenor o que queria fazer nos próximos 12 meses, fazia resoluções de Ano Novo, até fiz um 5-year plan! A maioria dos objectivos não eram, obviamente, cumpridos, tal como acontece com a maioria de nós. E aqueles que cumprem todos os seus objectivos, geralmente conseguem-no à custa de outras coisas. Portanto, em vez de ter objectivos definidos e mensuráveis, tenho áreas de foco. Sigo pela vida com uma bússola, não com um mapa. Sei para onde quero ir, mas em vez de ir por um caminho pré-definido, vou ao sabor do vento e das marés. Em termos práticos, em vez de uma to do list, tenho uma could do list.

Comecei a meditar. 
A meditação ajuda a combater o stress, a sentirmo-nos mais felizes, mais calmos e mais presentes. Até já pus os meus filhos a meditar com a ajuda deste video e o J., o mais céptico, segue-se.

Vivo mais no presente.
Deixei de me atormentar por coisas do passado e deixei de preocupar-me demasiado com o futuro. Foco-me mais no momento, no presente. Olho para o que tenho e sinto-me feliz. Tenho andado constantemente com um sorriso nos lábios e até sou mais simpática para as pessoas (nem sempre é fácil, claro...). Em vez de deixar que seja o comportamento dos outros a ditar a minha resposta, sou fiel a mim própria, independentemente dos outros. Ou seja, não é por alguém ser antipático ou mal educado para mim que eu também o vou ser.

Pensamento positivo.
Eu sempre fui uma pessoa optimista, mas agora ainda mais! Acredito que as coisas boas vêm na minha direcção e que há sempre um lado positivo em tudo. Por exemplo, o J. vai ficar 2 meses sem carta de condução (por causa de uma multa de há mais de 8 anos atrás... mas já sabemos que é assim que as coisas funcionam neste país). Em vez nos queixarmos da desgraça que é estar 2 meses sem conduzir (que não é desgraça nenhuma para nós, embora para alguém que dependa mesmo do carro possa ser), vimos o lado maravilhoso da coisa: é agora que ele vai começar a ir de bicicleta para o trabalho!! Já fomos comprar uma bicicleta nova e acho que se não fosse isto de ficar sem carta, ele nunca tomaria a iniciativa de se deslocar de bicicleta. E embora isto implique mais condução para mim, porque terei que levar os miúdos aqui e ali, estou muito contente!

O último livro do Leo Babauta, The Effortless Life, que li numa noite e vou voltar a ler, aborda estes tópicos e muitos mais. A vida é tão difícil quanto nós a fazemos, diz ele. E é verdade. Nós é que complicamos as coisas, somos negativos e adoramos queixarmo-nos, em vez de sermos gratos e felizes com o que temos. As orientações que o Leo nos dá para uma vida sem esforço são simples (e derivam dos ensinamentos do budismo, claro): não causes mal, não tenhas objectivos ou planos fixos, não cries expectativas, não cries falsas necessidades, não faças coisas de que não gostes, não te apresses e não cries acções desnecessárias. Em vez disso, sê compassivo e apaixonado, encontra contentamento, desacelera, sê paciente, está presente e prefere a subtracção.

E não, não estou a pensar tornar-me budista - mas toda a sua filosofia faz imenso sentido para mim. E é inegável que é do budismo que veio o minimalismo tal como hoje o conhecemos.

(e devo dizer que nunca um post me deu tanto prazer a escrever como este)
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