19/03/2017

Coisas que devem ser desmistificadas em relação ao paleo

Sendo uma mulher da ciência, há muita coisa que leio por aí que me irrita, mesmo. Agora, estando quase a terminar o curso de psicologia, até percebo melhor porque é que as pessoas se comportam de certas maneiras e porque é que têm crenças tão ridículas e enraizadas. Mas ler certas coisas, parvoíces, ideias completamente absurdas que não fazem nenhum sentido do ponto de vista científico, deixa-me exasperada. Parece que uma das missões do cientista é, ou deveria ser, desmisitificar estas ideias, e por isso eu tento fazer a minha parte aqui no blog. 

O motivo desta introdução é o que leio num grupo sobre alimentação paleo no facebook. Acho que é o maior grupo no facebook e o seu fundador faz um ótimo trabalho a tentar informar as pessoas sobre a alimentação paleo. No entanto, também caiem no grupo pessoas que não fazem ideia nenhuma do que é o paleo; outras que acham que ser paleo é continuar a comer todos os bolos e doces que quiserem, substituindo a farinha e o açúcar por ingredientes aceitáveis. Outras pessoas estão completamente perdidas, pedem conselhos aos outros leitores e recebem um chorrilho de disparates em troca. Outras pessoas baseiam o seu "conhecimento" naquilo que lêm nos meios de comunicação social e, pior, no facebook e outras redes sociais. E, claro, também há muitas pessoas no grupo que sabem do que estão a falar (mas essas parecem-me, infelizmente, uma minoria).

O que me levou ao post de hoje foi um comentário de uma leitora à entrevista do Dr. Manuel Pinto Coelho no Alta Definição. Escreve ela que "até concordo com alguns princípios desta dieta, mas quando ele diz que no paleolítico se vivia muito... nunca se viveu tanto como agora e isso deve-se à nossa alimentação diferente dos restantes animais. Não aprecio fundamentalismos! Com tantas restrições ao açúcar, ao glúten, ao leite, transforma-nos todos em intolerantes."

Isto, para mim, é de bradar aos céus! Então nós hoje em dia vivemos muito graças à nossa alimentação?? Vamos lá ver o que nos diz a ciência.




Acham mesmo que a pouca diferença que existe entre os norte-americanos e as várias sociedades caçadoras-recoletoras se deve à fantástica alimentação que os americanos fazem? Ou será que é por eles terem acesso a medicina e tecnologias que lhes prologam a vida, enquanto os caçadores-recoletores não têm nada disso? 

Outra coisa, é o medo que as pessoas têm da gordura - que comer gordura engorda, provoca doenças cardiovasculares e coisas dessas. Que o melhor mesmo é usarmos os hidratos de carbono como fonte de energia e fazermos uma alimentação baixa em gordura. Bem... há gordura e gordura, e a investigação cientifica que mostra como esta ideia é completamente errada é tanta, que vou só referir alguns estudos.

Primeiro, foi graças à nossa dieta rica em gordura, em comparação com os outros primatas, que o cérebro do Homo sapiens se tornou maior e mais complexo. O ser humano mostra uma preferência evolutiva por comidas ricas em gordura e tem uma maior capacidade para digerir e metabolizar dietas ricas em gordura do que os outros primatas. O nosso tracto gastrointestinal é consistente com o consumo de grandes quantidades de alimentos de origem animal, ao contrário de primatas como gorilas e chimpazés. Este artigo tem todas estas evidências científicas e muitas mais.

Segundo, ensaios clínicos controlados mostram que dietas ricas em gordura e baixas em hidratos de carbono ganham sempre relativamente às dietas pobres em gordura e ricas em hidratos de carbono. Alguns exemplos: 

A dieta baixa em hidratos de carbono (LC = low carb) foi mais eficaz na perda de peso em adolescentes com excesso de peso e não prejudicou o perfil lipídico (ou seja, não fez aumentar o colesterol nem os riglicéridos).

A dieta baixa em hidratos de carbono é mais eficaz que a dieta baixa em gordura para perda de peso a curto-prazo; após 6 meses, a dieta baixa em hidratos de carbono não está associada a aumento de fatores de risco cardiovascular.

Quem estava na dieta baixa em hidratos de carbono não desistiu tanto do programa como aqueles que estavam na dieta baxa em gordura, e a perda de peso foi maior. Na dieta baixa em hidratos de carbono, os níveis de triglicéridos diminuiram (o que é bom) e o colesterol HDL (o bom colesterol) aumentou, relativamente à dieta baixa em gordura.


Bom, aqui fica alguma food for thought. Voltarei em breve com mais ciência para desmistificar outras crenças...

9 comentários:

  1. Rita, qual a tua opinião sobre o consumo de fruta na paleo? Também estou num grupo desses (às tantas é o mesmo) mas noto uma grande fobia pela fruta... li o livro "Energia Paleo" e sinceramente fiquei com a ideia de não haver grande problema em relação à fruta... desde que não se ingerisse uma grande quantidade de fruta isolada...

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    1. É isso, Maria! A fruta tem muito açúcar, por isso se não queremos gerar grande produção de insulina, convém moderar o consumo de fruta, ou escolher as que têm menos açúcar... Eu costumo comer fruta ao pequeno-almoço, mas só como morangos, framboesas, coisas dessas. Também como bananas bem verdes (geralmente depois do ginásio ou natação) porque são uma boa fonte de prebióticos.

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  2. Eu como morangos ou abacate ao PA (nem todos os dias), durante a semana como quase sempre 2 kiwis ou citrinos ao almoço. Por vezes como banana à tarde (ou outra fruta) principalmente se estiver num local em que não hajam grandes opções mais adequadas e eu tiver fome... Como tenho acesso a morangos "à borla" no verão como bastantes... mas não noto que tenha mais fome (ou me dê mal) com fruta, em especial se acompanhada com fonte de gordura. E parece-me que tem muitas vantagens nutricionais (vitaminas, antioxiodantes, etc)

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  3. OLá Rita.
    O que mais lamento é quando os próprios médicos ou professores, ou outras figuras da sociedade que representam autoridade na área da Saúde defendem os maiores disparates, sem qualquer fundamento, julgam-se donos da razão e ainda prejudicam a saúde das pessoas!
    Gratidão pelas palavras. É um contributo para a humanidade.
    Beijinhos

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  4. Bom dia Rita.
    Já sigo o blog há alguns anos e identifico-me bastante com os temas aqui abordados.
    Segui o teu processo de mudança na alimentação, e também quero fazer mudanças mas o meu problema é a falta de disciplina, pois cá em casa,(somos 4) ninguém abre mao do pão e das bolachas.
    Verduras então, só bem longe!!!
    Obrigado pela partilha e inspiração!! bjs

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  5. Olá! Adoro estes posts sobre paleo. Se puderes fazer uma lista dos principais livros sobre o tema que aches efetivamente bons e que ajudem a pôr as idéias no lugar, agradecia. Não é fácil no dia a dia arranjar "substitutos" para o que estamos habituados a comer há tantos anos (um peq almoço sem pão ou cereais é visto como algo anormal) e tento ser criativa mas não é fácil. Decorei todos os teus posts sobre paleo, espero que venham mais pois têm-me ajudado imenso a guiar esta jornada. Obrigada Rita!

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  6. Eu prefiro alta em hidratos de carbono e baixa em gordura, posso comer quantas calorias quiser e continuar magrinha. Sou tão mais feliz desde que descobri esta dieta, os gelados de banana (bem maduras) são a minha vida :P

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  7. Há uma coisa que o Doutor Manuel Pinto Coelho disse em que não concordei muito... ele disse que as pessoas tem uma má ideia do sal, que o sal grosso marinho e o sal dos himalais (onde se arranja) que não nos fazem mal porque antigamente o sal já era muito importante e uma das provas disso é que era um bem de troca. Mas o sal antigamente não era para comer, era muito importante para conservar porque não havia frigoríficos. Depois disto quem houve o resto da entrevista pode ficar com algumas dúvidas sobre se o que ele diz é verdade... Qual é o grupo do facebook? Gostava de ler alguns livros sobre isso, não sei se tem alguns que possa indicar. Obrigada

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  8. Acho que hoje em dia as pessoas estão tão preocupadas em contar calorias e se alimentar corretamente que estão esquecendo o prazer de um bom prato de comida, daquelas que nossas avós faziam.
    Bj e fk c Deus
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com

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Obrigada pelo comentário!

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