No outro dia, no treino de judo dos meus filhos, uma das judocas, adolescente, veio ter comigo e com um dos meus filhos e disse-me que ele tinha-se portado muito mal num torneio que tinha havido uns dias antes, que tinha chamado gordo a outro miúdo (que é o irmão dela) e que ele devia ir ter com a mãe dela e pedir desculpa por ter chamado gordo ao miúdo.
O treino começou entretanto e eu nem tive tempo de reagir. O meu filho disse-me que o outro é que tinha começado a chamar nomes... Fui falar com a mãe do miúdo e da adolescente para saber o que se tinha passado. Ela, brasileira, muito simpática, disse-me que o meu filho tinha chamado gordo ao filho dela, e o problema é que muitos miúdos fazem os mesmo e ele até já deixou de comer por causa disso. Eu disse-lhe que a melhor maneira de resolver as coisas é pôr os dois frente a frente e cada um contar a sua versão da história. Foi o que fizemos no fim do treino. Um disse que o outro é que começou, o outro diz o contrário (com miúdos destas idades é sempre assim...), mas o importante é que pediram desculpa um ao outro e fizeram as pazes. No caminho para casa ainda lhe dei uma lição sobre bullying.
Apesar das coisas terem ficado resolvidas com a mãe e o miúdo, fiquei com a filha adolescente aqui atravessada. Mas quem é ela para ir dizer ao meu filho que ele tem que ir pedir desculpa à mãe dela? Primeiro, há sempre duas versões de cada história - e os miúdos são mentirosos e puxam sempre a brasa à sua sardinha. Acho errado ouvir só uma versão e assumir que essa é a correcta. Segundo, o meu filho teria que pedir desculpa ao outro miúdo, não à sua mãe. Terceiro, quem é esta miúda adolescente para vir dar ordens ou lições de moral ao meu filho à minha frente?
Fiquei irritada, mesmo. Como naquele dia não tive oportunidade, pensei na conversa que iria ter com ela no treino seguinte. Iria dizer-lhe que acho errado ela mandar o meu filho ir pedir desculpas à mãe dela e acho errado ela acreditar cegamente na versão do irmão. Queria dizer-lhe que compreendo que ela é novinha e não sabe bem do que fala, e teve sorte por eu ser uma pessoa paciente, porque outras mães poderiam ter ficado chateadas a sério com o comportamento dela.
Já tinha um discurso todo preparado para dizer à miúda, mas depois parei e pensei. Vale mesmo a pena? Vale a pena chatear-me por causa de uma miúda que tem idade para ser minha filha?
Por um lado, achei que sim, que valia a pena falar com ela e dizer-lhe o que penso do seu comportamento, quanto mais não fosse para ela aprender qualquer coisa. Por outro lado, achei que mais valia esquecer e seguir em frente - afinal, ela não é minha filha, não é minha responsabilidade (o meu levou uma lição de moral e um castigo).
Depois, cheguei à conclusão que o melhor seria pensar nela quando fizesse a minha meditação do amor. A meditação do amor (meditação metta ou loving-kindness, em inglês) é uma prática budista bastante difundida no Ocidente que tem como objectivo irradiar amor para todos os seres vivos do mundo, sem discriminação.
É uma prática que nos enche de amor e que nos ajuda a cultivar quatro qualidades, conhecidas pelos quatro pensamentos imensuráveis ou Brahma Viharas, que são consideradas as emoções mais superiores que se pode ter: amor, compaixão, alegria e equanimidade.
Durante a prática da meditação do amor, deve-se irradiar esse amor para várias pessoas. Em primeiro lugar, para nós próprios, o praticante da meditação. Em segundo lugar, uma pessoa de quem gostamos, como um familiar ou amigo. Depois, uma pessoa neutra, como alguém com quem nos cruzamos todos os dias mas sem muito interacção. Por fim, uma pessoa hostil ou em relação à qual temos sentimentos negativos.
O Buda ensinou esta meditação para desenvolver o amor altruísta e a verdade é que após a prática, sente-se uma onda de amor a invadir-nos... A minha esperança é que essa onda também atinja os outros, sobretudo aqueles em quem nos focamos durante a meditação - e, neste caso específico, a rapariga do judo.
Os críticos ou não-espirituais ou aqueles mais reactivos poderiam argumentar que ao fazer isto, ao não dizer à rapariga aquilo que penso, é pior para mim, ou que estou a esconder-me em vez de enfrentar a situação. Às vezes também penso assim.
Mas o que devo pensar é: o que é que me faz mais feliz? Um confronto, sabendo que vou ficar nervosa e que até posso nem exprimir-me bem e transmitir tudo o que quero? Ou o desapego da situação? Demorei um ou dois dias a perceber, ou até a aceitar, mas sim, desapegar-me, deixar ir, e tentar irradiar amor - é isso que me faz mais feliz.
Para saberes mais sobre a prática do amor universal.
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